A cabeça é a ilha“– Cadê o André?” No ambiente de poucas mesas, rapidamente o avistamos - agitado como sempre, pagando o almoço e pronto para ir embora. Trajando seu habitual par de tênis desamarrados, calças largas e camisa desabotoada. Pouco cabelo, barba de sobra. E o olhar, ferino, desconcertante, que involuntariamente revela detalhes de sua alma intensa e inquieta.

“– Você não vai esperar a gente, cara?” Ele sorri, despeja alguma piada seca e sai. Um passo aflito de quem tem muita pressa de alguma coisa. “– André não tem jeito”, comenta algum colega na mesa. Ainda bem que não tem jeito, penso. Acho que precisamos fundamentalmente de dois tipos de pessoas: aquelas que caminhem devagar e tenham paciência para ensinar o silêncio e as que andem rápido, enxerguem mais longe e abram caminho para os que vierem. Dahmer é desses últimos (ou primeiros, não sei) e, apesar de não se considerar um solitário, sabe que andar na frente exige uma coragem enorme para enfrentar o vazio. Ele tem essa coragem. E é admirável.

Estranho que hoje me dei conta de que cada pessoa é um mundo particular (parece óbvio, mas para mim foi um daqueles ‘estalos’) e cada um vive o real apenas como seu filtro pessoal o permite. Eu vejo na obra do André uma inspiração inesgotável para meu próprio trabalho e para minha vida. Já minha mãe prefere nem expor seus livros na estante da sala, em nome da família e dos bons costumes, “imagina se alguém encontra isso aqui?”. Outras inúmeras interpretações e reações são possíveis, o que apenas reitera o caráter caleidoscópico e rico da produção desse homem – que anda a frente de todos nós, com seus sapatos desamarrados…

André Dahmer conjuga sinceridade, perspicácia e humor para dar vida a um universo poético tão fascinante quanto constrangedor. Com sua experiência pictórica combina imagens dramáticas, cinzas, dolorosas, com pinceladas de leveza, graça e cor. Por fim, a gente ri – seja pela identificação, por nervoso, pela surpresa… E nisso reside a genialidade de suas “despretensiosas” tiras, que se amalgamam à própria natureza do riso: o sutil equilíbrio entre contração e descontração.

Considerado um dos grandes talentos atuais dos quadrinhos (e um pilantra pelo ex-chefe Jorge), André prefere ser reconhecido como um cara bom, que ama a vida, sua esposa, seus amigos e também as plantas. Hoje é o lançamento de seu quarto livro, intitulado “A cabeça é a ilha”, a partir das 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Rio de Janeiro. Todos convidados.

Que esse livro traga mais alegrias e que sua estrada seja de paz, amigo…

Sempre.

Clarinha

10 conversinhas...

  1. Keyla

    Deve ser uma pessoa legal, já começo a gostar dele…

  2. mc

    acima de tudo, um fofo. você também, clarinha.

  3. Antônio Marcos

    Vou fazer comentário sobre “o que” você escreveu e não “sobre” o seu texto.
    Clara, se você me permite: já vi suas tiras (acompanho por rss) e adoro. Já vi você cantando no youtube (e prefiro as tiras), mas fiquei estupefato pela qualidade do seu texto acima. Eu leio um bocado. E não sou bom pra recomendar, mas escreva um romance. Você deve ter dom pra isso. Se você escrever um livro inteiro da mesma forma como escreveu aqui, vai ser comparada certamente aos maiores. E provavelmente vai escrever outros.
    Um abraço.
    (mas escreva um romance adulto, não pra adolescentes).

  4. Jussara

    Ele gosta de plantas?!? ALGUMA coisa que passe pela sua mão sobrevive na terra?!? :P

  5. Barata

    Confissão: quero apertar os quadrinistas monstros, mas vocês estão todos longe, poxa vida ;/
    O Dahmer será feliz de verdade quando tiver um jardim gigante pra ele cuidar.

  6. Alexandre Lucas

    O querido amigo Daniel do blog Chato no Ar quebrou o galho - e impagável favor - de comparecer ao coquetel de lançamento e me comprar um livro autografado. Já está nos Correios. Mal posso esperar.

  7. anunciação

    Concordo com o antonio marcos quanto a sua qualidade de escritora;faça o livro,mesmo,mas não vá pela cabeça dele nem de ninguém;faça=o com vc sabe e gosta.Quanto ao André,acho-o grande.

  8. Wilson Júnior

    Clara, amei o seu texto.
    Mais um talento que você deveria explorar.

    Bjos

  9. J.P. "Coiote"

    Gostei do artigo, sou fã dele desde que eu era pequeninho (ou desde que a internet parecia pequeninha e eu ainda menor, sei lá).

    Lindo, lindo (o texto, São Dahmer não tive a honra de conhecer pessoalmente).

  10. Amanda Meira

    Concordo totalmente com o Antonio Marcos, Tb leio muito e fiquei comovida com a qualidade textual.
    Parabéns!!